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Diálogo

Para encerrar a extensa programação de aniversário de 21 anos de criação da Defensoria Pública do Estado de Roraima (DPE-RR), foi realizado na tarde desta sexta-feira, 21, o Diálogo Virtual com a participação da deputada Joenia Wapichana. Com o tema “Defesa de Direitos e o combate ao Racismo”, participaram da live, transmitida pela rede social Instagram, os defensores públicos Stélio Denner, defensor público-geral, e Oleno Matos, subdefensor.  

Joenia fez um resgate histórico para mostrar que a desinformação é um dos principais fatores que geram o preconceito e o racismo contra os povos indígenas. "É preciso entender e compreender porque muitas pessoas não conseguem aceitar a questão dos povos indígenas", disse a deputada ao citar que o problema começa na História do Brasil, na qual os povos indígenas foram apagados de forma drástica.

A deputada comentou que Boa Vista é considerada pelos indígenas como a Grande Maloca porque a Capital roraimense era uma  terra indígena Wapichana, cujos indígenas moravam na beira do Rio Branco e foram se afastando com a chegada dos colonizadores. "Ali onde está o Distrito Industrial tinham os igarapés. Minha mãe contava que as indígenas iam ter seus bebês ali. Os bairros mais tradicionais indígenas são o 13 de Setembro e São Vicente, porque ali era uma aldeia Wapichana. Ninguém conhece essa história", narrou.

Ela disse que a ponte dos Macuxi, que interliga Boa Vista ao Cantá, pela BR-401, deveria se chamar ponte dos Wapichana, porque tudo ali era território dos Wapichana. "Foram os Wapichana que trabalharam construindo essa ponte. Alguns deles contam essa história, inclusive eles participaram da inauguração da ponte onde eles carregaram concreto. São histórias que não são escritas, são faladas pelos avós", complementou para frisar que a prática da desinformação gera, através do desconhecimento, a prática do racismo.

A parlamentar lembrou que didatura militar foi uma época difícil para os indígenas a partir da abertura das estradas, na década de 1970. "Faziam propaganda, tinha até outdoor, dizendo 'venha pra Roraima, tem terra pra todos'. Mas não sabiam que aqui tinham indígenas, que tinham terras indígenas que estavam sendo regulamentadas e regularizadas. Aí criou-se um conflito porque vinha gente de fora em busca de uma conquista da terra onde tinha muito ouro, onde podiam criar suas fazendas, onde tinha terra pra todo mundo. Só que esqueceram de avisar que tinham os povos indígenas. E aí vocês viram o resultado", prosseguiu ao narrar o início dos conflitos que se prolongam até os dias atuais.

Segundo ela, somente a partir da Constituição de 1988, com os artigos 231 e 232, a realidade foi mudando, quando ficou bem claro que os indígenas têm seus direitos de manter sua organização social, seus usos, costumes, crenças e tradições. "A partir desse reconhecimento que se busca a implementação desse direito de serem contemplados de forma diferenciada", frisou.

Ao lembrar da fala do defensor Oleno Matos sobre a necessidade de se lutar por uma educação indígena diferenciada, Joenia disse que a Constituição de 1988 possibilitou isso. "Porque se a nossa Lei Maior reconhece o direito do indígena de manter sua língua materna, o ensino bilíngue, de ter um processo diferenciado com respeito a sua cultura, seus valores, suas crenças, tradição, então tem que ser respeitado em forma de lei. E aí já começam o preconceito e o racismo. Os povos indígenas sofreram muito isso na época da colonização quando se perderam várias línguas", afirmou lembrando do difícil processo de resgate dessas línguas quando colocaram o português como uma língua superior.

A deputada, que é advogada de formação e trabalhou pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, também disse que o problema também está nas faculdades de Direito, que não disponibilizam uma disciplina sobre os direitos dos povos indígenas. "Por isso, quando a pessoa vai lidar com o Direito tem que abrir o coração e a mente. O coração aberto a essas diferenças culturais. E a mente aberta para saber que se tratam de direitos. Aí a gente vê que muitas pessoas não estão abertas para isso, porque se impõem como uma cultura superior".

Joenia Wapichana disse que sempre tem um choque quando as pessoas não compreendem e desconhece a diferença de cultura e de valores, que a questão dos povos indígenas precisa ser tratada com muito conhecimento e formação. "Com o choque do acesso à tecnologia, muitas vezes as pessoas não conseguem respeitar a identidade indígena, O indígena não pode ter um celular, um tênis, não pode usar um iPad, não pode ter uma profissão, porque perderá sua identidade".  

"Se eu não sou indígena, seu não sou branca, o que sou então? O choque de identidade faz as pessoas reproduzirem alguns discursos que acabam multiplicando a questão do racismo", complementou Joenia ao frisar que se torna difícil acessar os direitos sociais porque não se conhece e não se acompanha a questão dos povos indígenas.

Foto: Lohana Chaves/ Ascom